
segunda-feira, 8 de março de 2010
“O jeito de ser mulher, os desejos e desafios são similares”, diz Lia, do projeto San Albert, na Argentina
Lia de Ieso é assistente social e atua no projeto San Albert, das Irmãs Oblatas, na Argentina, onde são feitos atendimentos a mulheres que estão em situação de violência familiar e sexual.
Durante o mês de fevereiro, Lia fez uma experiência de intercâmbio no Projeto Força Feminina, em Salvador, onde pôde conhecer um pouco mais do trabalho de atendimento às mulheres em situação de prostituição. Confira entrevista concedida por Lia de Ieso:
Seu trabalho na Argentina é com mulheres em situação de violência. Que tipo de violência? Trabalho com as Oblatas, na Argentina, há quatro anos, em um projeto semelhante aos projetos feitos no Brasil. A diferença é que lá, alguns projetos trabalham especificamente a situação de prostituição e outros não. Sempre temos presente a questão, mas, no projeto que seu estou em Buenos Aires, no município de La Matança, no bairro San Alberto, o maior e mais carente município e periferia de Buenos Aires, trabalhamos dentro de uma comunidade que é como se fosse uma favela aqui, com problemas com mulheres que estão em situação de violência familiar e violência doméstica. Trabalhamos com essas mulheres e também com outras mulheres que moram na comunidade, no bairro. E aí também tem muitas mulheres que estão na situação de prostituição. O meu trabalho lá é especificamente com as mulheres que estão sofrendo violência familiar, do seu parceiro ou às vezes de seus filhos, ou outros tipos de violências, como mulheres que sofrem violência de outras mulheres parceiras.
Quantas mulheres vocês atendem no projeto em San Alberto? Como é a rotina? O sistema que nós temos está articulado com outros centros que trabalham com a mesma temática. São 10 centros que trabalham em conjunto. Os outros centros não são das irmãs Oblatas, são de outras organizações, mas todos têm o mesmo sistema der trabalho. A mulher chega, fazemos uma entrevista para conhecer sua história e sua situação, e aí avaliamos a situação e o que poderemos oferecer para ela nos centros. Aí temos dois sistemas de trabalho: os grupos terapêuticos com as mulheres e o atendimento psicológico individual. Há mulheres que ficam no grupo, há mulheres que ficam no grupo e no atendimento individual, e outras ficam apenas no atendimento individual. O ano passado e no ano retrasado tivemos muitas mulheres. O número de mulheres que se aproximou do centro foi crescente, porque muitas mulheres foram conhecendo o centro e aí então, atendemos, em média, 60 mulheres. Isso porque nós não atendemos todos os dias, somente alguns dias da semana. A equipe no projeto que estou não é muito grande, somos oito pessoas na equipe: três irmãs, uma psicóloga, uma assistente social e três mulheres que estão trabalhando, que já sofreram violência e que agora estão se capacitando para acompanhar outras mulheres. Nós as chamamos de operadoras. E também fazem parte da equipe, são membros.
Conte-nos como foi a sua experiência no Brasil. Cheguei ao Brasil em janeiro e fui para o Rio de Janeiro, onde fiz um curso, e depois eu fui para Salvador, na Bahia. O curso que fiz foi sobre contadora de histórias, para trabalhar com as histórias de ensinamento como uma ferramenta de trabalho. Em 2008 eu estive de férias aqui no Brasil, e achei interessante vir fazer uma experiência aqui, conhecer uma outra realidade, e o trabalho específico com as mulheres em situação de prostituição.
Como foi sua experiência na comunidade de Salvador, BA? Os dias passaram muito rápido. O mês passou voando! Foi um mês muito movimentado, porque teve o carnaval no meio. Mas eu experimentei várias questões, como por exemplo, como o povo aqui vive o carnaval. Mas foi uma experiência muito interessante, aprendi muitas coisas. Fiquei mais perto do trabalho com prostituição, com um trabalho mais específico, e fui descobrir no trabalho de campo algumas características mais específicas, e aprofundando no trabalho direto, na temática da prostituição. Tive a possibilidade de fazer visitas também, fiquei bem de perto, trabalhando com as mulheres e conhecendo sua realidade. E também descobri o jeito de trabalhar nessa realidade. Descobri que temos muitos preconceitos e muitas dificuldades em nos aproximar, ir trabalhando e ir respeitando... é um trabalho bem complexo. Vejo que a realidade das mulheres é uma realidade diferente, a cultura é outra. Mas existem similaridades, como o que a mulher deseja, suas dificuldades, acho que são as mesmas. O jeito de ser mulher, os desejos, as dificuldades, os problemas, no fundo e na essência, são muito similares. Às vezes, olhava para uma mulher aqui e me lembrava de uma mulher que tinha atendido na Argentina. Acho que, se você ver a mulher como mulher mesmo, aí você se aproxima, seja no lugar que for.
Como foi sua aproximação com as mulheres em situação de prostituição? Em geral, não foi muito difícil de me aproximar. Eu me lembro um dia, que chegou uma mulher, era uma menina, que olhou para mim, com um olhar de interrogação “o que você está fazendo aqui?”, como se estivesse me provando, para saber como eu ia agir. Depois disso, passado esse momento em que ela ficou me olhando, descobrindo quem eu era ou como eu estava me posicionando, nós tivemos uma longa conversa, e quando eu fui para a praça, ela ficou procurando por mim para conversarmos mais... Fui muito bem recebida pela equipe de trabalho e também pelas mulheres. Pelas irmãs e também pelos outros profissionais da equipe.
Quais foram suas atividades nessa experiência em Salvador? Na verdade, fiquei em várias atividades diferentes. Comecei nos primeiros dias de fevereiro, depois veio o carnaval e depois aconteceu o planejamento anual. Então, fiquei no momento de acolhida das mulheres que estão na primeira etapa, que estão chegando à instituição, e se inserindo. Aí acontecem algumas atividades em que o pessoal fica com as mulheres, fazendo diferentes atividades. Aí fiquei participando dessas atividades, partilhando com as mulheres em algumas atividades mais lúdicas e de criatividade, com alguns bate-papos, também estive participando com as mulheres de algumas oficinas de música. Depois também fiz algumas visitas. Fui para a Praça da Sé [em Salvador], o local que fica mais perto de onde nós estávamos, depois fui visitar algumas mulheres que estão na praça. Participei no Grito de Carnaval que fizemos com as mulheres, que aconteceu na quarta-feira. E depois tem um grupo de mulheres que estão com um empreendimento de cozinha, elas estavam preparando comida, então participei com elas. Estive participando do planejamento anual, que foi um trabalho intensivo de planejar o ano inteiro, e me permitiram participar escutando e colaborando com o que eu podia.
Que mensagem você pode deixar para as equipes e comunidades no Brasil? Primeiramente, estou muito agradecida pela recepção que tive no Brasil, as irmãs e todas as pessoas da comunidade Oblatas que se aproximaram, me ajudaram muito, me acolheram muito bem, me ofereceram tudo para conhecer. A verdade é que estou muito agradecida a toda a comunidade e à Província das Oblatas. Vejo que o trabalho que estão fazendo no Brasil é, realmente, com muito compromisso, muita sinceridade, muita força. Acho que estão bem comprometidas para poder acompanhar as mulheres, procurando encontrar o melhor jeito, pesquisando todo o tempo, olhando todo o tempo para as mulheres, o que elas estão precisando, qual é a realidade, como se aproximar dessa realidade, que vai mudando, que vai apresentando novos desafios. Acho que todas as Oblatas que conheci têm esse compromisso forte com as mulheres no seu carisma, de ir acompanhando procurando respeitar e acompanhar do melhor jeito. Acho que o trabalho que estão fazendo aqui é muito bom, com muito respeito, muita força, muita procura do melhor jeito de acompanhar as mulheres, para que tenham uma melhor qualidade de vida. Desejo que o trabalho continue desse jeito, sempre procurando estar perto da realidade. Vi aqui muito trabalho, muito esforço das irmãs se aproximando da realidade das mulheres, escutando o que elas têm para falar, o que elas desejam, aprendendo delas também. Acredito que cada vez que você se aproxima de uma mulher, você aprende muito. Também aprendi muito aqui com as mulheres com quem eu estive partilhando as experiências. E continuar caminhando, procurando estar bem perto da realidade, procurando entender, compreender as mulheres e caminhando junto com elas, porque elas têm muito para ensinar e para elas também irem fazendo, um processo de acompanhamento. Acho que aqui as irmãs vêm fazendo isso mesmo.
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